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  16:38

Lula atuou para a neutralidade do PP de Ciro Nogueira. Neutralidade ou estratégia?

 Ciro foi aliado de Lula desde o primeiro dia de governo do petista, em 2003.

A política brasileira tem mostrado, mais uma vez, que as disputas eleitorais quase nunca são guiadas por afinidades ideológicas, especialmente do que pensa o eleitor fanático. Em todas as elas prevalece o interesse, a necessidade de manter o poder e que realmente impirta é fazer as alianças capazes de garantir influência, independentemente do resultado das urnas.

Reportagem divulgada nesta sexta-feira pelo G1 revela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atuou diretamente para convencer a federação União Progressista (PP-União Brasil) a permanecer neutra na eleição presidencial. Segundo a matéria, ministros, dirigentes partidários e o próprio presidente trabalharam para evitar que a federação declarasse apoio ao pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro. A neutralidade, segundo os interlocutores ouvidos pela reportagem, preservaria os palanques regionais, especialmente no Nordeste, além de manter a boa relação institucional entre os partidos. É o famoso toma lá, dá cá.

O fato veio a público um dia depois de o senador piauiense Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, anunciar oficialmente que a federação adotaria uma posição de neutralidade na disputa presidencial.

VAMOS FALAR DE PIAUÍ

Trazendo o fato para o estado do Piauí, propriamente, a decisão de Ciro faz todo sentido. Ao não assumir um compromisso formal com nenhum dos candidatos, evita fechar portas. Ou melhor, entra tranquilamente em todas as portas já abertas, inclusive as petistas e as de aliados históricos.

Exemplos recentes mostram uma percepção que parece... Parece... Que já estava tudo combinado. O vice-governador Themístocles Filho já fez declarações públicas de apoio ao senador Ciro, mesmo sendo vice-governador e aliado histórico do PT. E o "time do presidente Lula, do PT", como eles mesmos dizem, tem o senador Marcelo Castro e o deputado federal Júlio César nas duas vagas para o Senado. Não é estranho? Mas não é só Themístocles, que fique claro! 

Enquanto o presidente Lula vai pedir voto para a dupla Marcelo Castro e Júlio César, ele sabe que Ciro não vai pedir voto para Flávio Bolsonaro. Mas sabe também que muitos de seus outros importantes aliados no estado não irão pedir voto para a sua dupla. No fim, Ciro libertou prefeitos aliados históricos para apoiar a reeleição de Rafael Fonteles ao Governo do Estado, como o prefeito de Campo Maior, Joãozinho Félix, e o PT, por sua vez, parece ter liberado prefeitos e, no último caso, até o vice-governador para apoiar Ciro. Não se fala é onde Júlio César fica nessa "estória" toda.

Para o eleitor, essas movimentações parecem contraditórias, sobretudo quando o discurso eleitoral apresenta uma polarização intensa e até muito agressiva entre os eleitores.

É justamente essa diferença entre o discurso e a prática que deve levantar questionamentos para o eleitor. Se, publicamente, os adversários se apresentam como representantes de projetos completamente opostos, principalmente usando a esfera nacional, por que, nos bastidores, os acordos e os conchavos permanecem?

Não há ilegalidade em construir alianças ou preservar pontes de diálogo. Pelo contrário, a própria democracia é baseada na negociação entre diferentes forças políticas. O problema surge quando o eleitor percebe, ou não percebe, o contraste entre a narrativa apresentada nos palanques e as articulações que ocorrem longe dos holofotes, nas agendas fora da agenda, nas propostas e acordos que o eleitor nunca saberá.

A neutralidade anunciada pelo PP, somada à atuação do governo federal para viabilizá-la, demonstra que, na política brasileira, e na piauiense, as estratégias costumam ser mais complexas do que a divisão entre situação e oposição faz parecer. No fim das contas, a disputa eleitoral também envolve cálculos sobre governabilidade, influência regional, tempo de televisão, fundo eleitoral e manutenção de capital político. Em último caso, um precisa engolir o outro para se manterem no poder. E o ignorante eleitor  se matando e, muitas vezes, matando o outro, literalmente. 

Talvez esse seja o maior desafio para o brasileiro leigo, mas que se acha especialista em política: olhar além da caixa e compreender que, por trás dos discursos acalorados e das supostas diferenças ideológicas, principalmente da nova modinha de ser direita ou esquerda, não passa de um ambiente permanente de negociação e interesses próprios de manutenção de poder, em que preservar caminhos para o futuro próprio costuma ser muito mais importante do que caminhos para o desenvolvimento das pessoas, do estado e da nação.

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