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  18:06

ENTREVISTA COM DOM EDUARDO ZIELSKI (MEMORIAL 50 ANOS DA DIOCESE 1976-2026)

                                                                                Apresentação 

Aproveitando o ensejo da comemoração pelos 50 anos da diocese de Campo Maior, apresentamos uma entrevista exclusiva com o bispo Dom Eduardo Zielski. Dom Eduardo, assumiu a diocese de Campo Maior no ano de 2000, mesmo ano de sua sagração episcopal, tornando-se o segundo bispo desde a fundação em 1976.

Conhecido pela sua singeleza e fidelidade à Igreja, notabilizou-se sobretudo em seu trabalho de formação espiritual de pessoas. Dom Eduardo fortaleceu as pastorais e trouxe para Campo Maior o retiro Oásis, do Movimento Evangelizador LUZ-VIDA (ΦΩΣ ΖΩΗ), movimento de origem polonesa que se tornou referencial no norte do Piauí. 

Clérigo acessível, assertivo e piedoso, Dom Eduardo Zielski apresenta nessa entrevista um resumo de sua trajetória e apresenta detalhes inéditos de sua biografia. A página O Apóstolo Piauhy tem o prazer de divulgá-la, trazendo luz à história desse bispo que se tornou parte indelével da diocese de Campo Maior.

                                                                                     ENTREVISTA 

                                                                            (Dom Eduardo Zielski 1947)

 1. A princípio, bispo, conte um pouco sobre como foi a sua vida antes da ordenação sacerdotal e sobre as experiências que motivaram a sua      decisão de se tornar padre

Desde os 6 anos de idade fui coroinha. Tinha de aprender as respostas da Santa Missa na língua latina (na época a única forma de celebrar a Missa era nesse idioma). Também fui admitido para 1ª Comunhão com 6 anos de idade. Na minha família existia uma sadia atmosfera de religião: missa dominical, orações diárias, confissão mensal, exemplo cristão dos pais e os conselhos deles para prosseguir de maneira correta moralmente. Penso que tudo isso contribui para descobrir a vocação sacerdotal. Mas, em todas as outras coisas, reconheço que fui um jovem como outros: frequentando o colégio, por 2 anos tive namorada, cultivei esportes (atletismo), toquei guitarra no conjunto do colégio... Entretanto, nunca abandonei meus compromissos religiosos. Com 16 anos fui convidado para participar de um acampamento dirigido por um padre. Durante uma Missa (10/08, festa de S. Lourenço) fui tocado com uma palavra do Evangelho proclamada neste dia. Gravei ela até hoje: “Se alguém quer me servir, siga-me; e onde eu estiver, estará também aquele que me serve”. (Jo 12,26). Esta frase de Jesus me incomodava anos depois e, quando chegou o término dos estudos, aconteceu a decisão: vou para seminário, quero ser padre (tinha 18 anos). A minha ordenação sacerdotal aconteceu no dia 21 de maio de 1972.

2. O senhor atuou em paróquias polonesas. Poderia falar sobre a comunidade católica em seu país natal durante essa época e, além disso, se havia diferenças entre ela e aquela que encontrou no Brasil.

Quando padre atuei 8 anos na Polônia. Trabalhei em duas paróquias como vigário paroquial, sempre com um padre mais experiente como pároco. Minhas tarefas foram mais como catequista de crianças e de jovens (na época os padres assumiram esse compromisso, dedicando-se por até 30 horas semanais, pois durante o governo comunista a religião na escola era impossível). Nesse tempo toda evangelização foi feita no templo e na família devido às restrições legais. Exemplo: para fazer uma procissão no dia de Corpos Christi, precisava-se pedir licença às autoridades civis, as quais permitiam apenas algumas vezes para não entrar em choque com o povo; outro: os seminaristas, na idade de servir ao exército, eram obrigados a ficar durante 2 anos no quartel, onde eram doutrinados na ideologia comunista e leninista (eu também passei por esta experiência). Nesse pequeno exemplo, podemos ver como há grande diferença entre a atuação da Igreja na Polônia e no Brasil.

Com 5 anos de padre, a vocação missionária desabrochou no meu coração. Apresentando o meu desejo ao bispo, ele me segurou ainda 3 anos na diocese e enfim concordou. Assim, no ano 1980 cheguei ao Brasil. Atuei 3 anos em Santa Catarina (cidade Blumenau), 7 anos na Bahia (cidade Central e Irecê), 10 anos em Pernambuco (cidade Ibimirim e Tacaratu) e no ano 2000 fui chamado para assumir a tarefa de ser bispo da Diocese de Campo Maior-PI. 

3. Seguindo o tema da pergunta anterior, é possível mencionar que o Brasil é um país muito diferente da Polônia nos mais variados aspectos e que deve ter havido um choque cultural no início de sua mudança. A respeito disso, conte-nos sobre o que mais chamou sua atenção, sobre as dificuldades e sobre os pontos positivos.

Uma coisa que mais me chocou na Igreja do Brasil foi a chamada “Teologia da Libertação”. Este fenômeno, nos anos 70 e 80 do século passado, foi muito forte no Brasil. Parecia que eu estava em outra Igreja. Tudo o que escutei sendo doutrinado na escola e no exército, escutei aqui no Brasil durante os encontros de formação na Igreja. Confesso que entrei numa crise, até o ponto de que no ano de 1985 pensei em retornar para a Polônia. Nesse ano viajei para as férias e meditei muito sobre o que deveria fazer. Visitando o Santuário Nacional de Nossa Senhora de Czestochowa , celebrando a Santa Missa, deparei-me com o Evangelho: ”Ninguém que ponha a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino do Deus” (Lc 9,62). Então decidi voltar para o Brasil e enfrentar essa Teologia da Libertação, ancorando-me nos ensinamentos do Santo Padre que com muita precisão apontava os erros desta linha teológica. Nesse mesmo ano a Santa Sé divulgou um documento intitulado: “LIBERTATIS CONSCIENTIA” sobre a liberdade cristã e a libertação.

4. O que significou para o senhor ter sido ordenado bispo?

A minha nomeação episcopal, pelo Papa S. João Paulo II, aconteceu dia 02/02/2000. A consagração foi no dia 07/05/2000 em Campo Maior. Em primeiro lugar, foi uma grande surpresa para mim. Cheguei ao Brasil para ser missionário e trabalhar nos lugares evidentemente mais necessitados da evangelização, lugares onde faltam padres. Não estava em meus pensamentos ser chamado para o episcopado. Mas, se esta foi a vontade da Igreja, aceito. E assim iniciei o meu trabalho em Campo Maior, o qual durou 16 anos. Dia 02/04/2016 fui transferido para a Diocese de São Raimundo Nonato onde permaneci até 30/09/2023, tornando-me bispo emérito.

O fato de ser nomeado bispo desperta no padre o pensamento de que foi reconhecido como alguém que, através do seu jeito de trabalhar, é apto a tão elevada função da Igreja e isso enche o coração de um legítimo e sadio orgulho.     

5. O senhor iniciou a sua trajetória como Bispo em Campo Maior. Qual sua percepção sobre a cidade após a sua trajetória nela?

Iniciando o meu serviço da Diocese de Campo Maior, percebi que o que é necessário fazer com mais empenho é a formação religiosa e catequética. O meu antecessor, Dom Abel, sendo primeiro bispo de Campo Maior, empenhou-se para erguer a diocese de forma física, material, isto é, ele fez o espaço eclesiástico. Doravante, eu devia preenchê-lo com as pessoas. E isso somente pode acontecer através da formação. Sendo assim, empreguei todas minhas forças: físicas, espirituais, intelectuais e financeiras para esse fim.  

6. Ainda sobre Campo Maior, quais principais desafios o senhor encontrou na organização da Diocese nas dimensões pastoral e cultural do povo campo-maiorense, por exemplo?

Um dos grandes desafios que encontrei foi a falta de lideranças e consequentemente a falta de pastorais atuantes. Na época, somente encontrei o ECC e RCC em serviços mais ativos e relevantes. Claro, continuei apoiando estes movimentos, mas foi necessário impulsionar e reanimar outros que são fundamentais para o funcionamento da diocese: Pastoral Catequética, Pastoral Familiar, Pastoral Rural, Pastoral Juvenil, Pastoral Vocacional, Pastoral da Criança, Pastoral do Menor etc. Então, a formação é indispensável. 

7. O movimento Luz-Vida, cujo foco se dá na evangelização e no fortalecimento espiritual de jovens, tornou-se referência no norte do Piauí. Como introdutor do movimento em nosso país, apresente o seu ponto de vista quanto à sua motivação e anseios ao implantá-lo aqui.

Inicialmente gostaria de dizer quando aconteceu o meu encontro com Movimento Evangelizador LUZ-VIDA e consequentemente o meu encontro pessoal com Jesus. Esse encontro pessoal com Jesus como o meu Senhor e Salvador é um momento central de toda minha formação. Somente comecei a refletir sobre isso depois do meu primeiro oásis em 1974. Foi o próprio Pe. Francisco Blachnicki, fundador do Movimento Evangelizador LUZ-VIDA, quem dirigiu as reflexões para mais de 40 padres, apresentando o movimento e qual é a sua filosofia. Eu já era padre fazia dois anos. Em mim despertou uma pergunta: eu já recebi Jesus com meu pessoal Senhor e Salvador? Se foi, então, quando é que isso aconteceu? Verificando as páginas da minha história pessoal, percebi que uma mudança decisiva na minha vida aconteceu durante uma peregrinação que fiz para a Czestochowa, no sexto ano da Grande Novena comemorativa do Milênio do Batismo da Polônia. Foi o ano dedicado à juventude. Eu tinha 16 anos. Percebi que alguma coisa mudou em mim. A minha participação na liturgia começou a ser mais ativa, cuidei para poder, em cada Missa, receber a Comunhão Eucarística, prestei atenção para não cometer nenhum pecado grave. A oração pessoal se tornou algo mais prazeroso e não mais uma chata obrigação. Neste tempo ainda não pensei sobre o sacerdócio, mas percebi depois que esse momento semeou em mim uma semente da vocação, pois, quando terminei o ensino médio, não tinha dúvida de que devia ir para o seminário.

Hoje, após mais de 50 anos da minha ordenação sacerdotal, rendo graças ao Senhor Deus por me conduzir nas estradas da vida: serviço militar, tentações de desistência, vocação missionária, possibilidade de fazer oásis no Brasil, vocação para ser bispo. Sei que tudo isso começou naquele formidável dia em Czestochowa, diante do Ícone da Madonna Negra, quando Ela me apresentou o seu Filho para que O receba como meu pessoal Senhor e Salvador.  

Chegando para o Brasil, refleti: será que algo na minha bagagem pastoral poderia ser aproveitado na vida da igreja brasileira? Então percebi que a única coisa seria a formação da juventude e isso através do Movimento Evangelizador LUZ-VIDA. Comecei esse trabalho já na primeira paróquia de Blumenau-SC, mas não decolou. Por quê? O forte do movimento é um retiro de 15 dias, num lugar afastado, com convivência, muita reflexão e formação. Entretanto, os jovens da paróquia manifestaram muitas ocupações: estudos, emprego, etc. Somente quando fui transferido para a Bahia, sertão de Irecê, poderia iniciar o trabalho do movimento com todo vapor. A juventude manifestou mais tempo livre devido às férias, às prolongadas secas (falta de serviço nas roças) e também devido à falta de emprego, razões porque os jovens estavam desocupados. Então a proposta de um retiro de 15 dias caiu como uma alternativa bem aceita. Nos anos 1985 até 1990, fizemos os retiros anualmente e às vezes até dois retiros por ano. No ano de 1990, comecei o meu serviço missionário em Pernambuco na Diocese de Floresta. Continuei o trabalho com a juventude conforme a proposta do Movimento Evangelizador LUZ-VIDA. Esse trabalho me ajudou a formar agentes pastorais, catequistas, líderes de outras pastorais e, acima de tudo, na formação dos católicos autênticos, fiéis à Missa Dominical, às confissões frequentes e preocupados em manter a vida moralmente correta. Vale a pena frisar que foram despertadas autenticas vocações sacerdotais e religiosas. Então chegou o ano 2000, quando fui chamado para me tornar o bispo diocesano de Campo Maior. Neste posto não terminei meus trabalhos com o Movimento LUZ-VIDA. Deixei livre na agenda 15 dias no mês de janeiro, para ficar com jovens e continuar a formação que deu tão certo no passado. Quando fui transferido para a Diocese de São Raimundo Nonato também continuei com o mesmo trabalho. 

8. Dom Eduardo, o senhor tem formação em filosofia e teologia onde fez seminário e parece adotar uma linha teológica mais tradicional. Sendo assim, conte-nos sobres as principais influências intelectuais e espirituais que o senhor adquiriu durante sua formação sacerdotal?

Vejo que devo me posicionar diante da questão: se sou progressista ou tradicionalista. Então, se o progresso significa introduzir na prática da Igreja os elementos de comunismo, luta de classes ou abandono da doutrina e moral católica, então eu sou tradicionalista. A minha linha de ação é a fidelidade do Magistério Eclesial. Acredito que o Papa, quando se pronuncia “EX CÁTEDRA” sobre doutrina e costumes, é infalível.  

9. Olhando para toda sua trajetória enquanto sacerdote e bispo, o senhor se sente realizado em sua missão?

Sim, plenamente. Nesse tempo, ultrapasso 54 anos da minha ordenação sacerdotal e 26 anos da sagração episcopal. Podemos dizer que a vida toda foi dedicada ao serviço da Igreja. Para expressar o meu sentimento, vou usar as palavras de São Paulo Apóstolo escritas para Timóteo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé”. (2Tm 4,7).

 

 

Entrevistadores: 

Caio Silas Alvarenga Malaquias

Dário Leno de Souza Farias

 

 

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